domingo, janeiro 24, 2016

Sobre alunos e futuros

Todos sabem que eu chego a ser chata de tanto que falo nos meus alunos e como sempre tenho tanto orgulho deles. Em quase 12 anos de Olindo muitos alunos maravilhosos passaram pela minha vida e continuam me orgulhando com suas conquistas de vida.

Entre tantos, uma aluna não foi minha aluna, foi minha professora. A Vitória já era no 2° ano a mulher madura que talvez eu possa ser aos 50 anos. Ela me ensinou a me preocupar com o próximo, a manter minha personalidade sem se preocupar com os outros, a respeitar quem é diferente de mim, a saber que não preciso ser pedante por causa do meu conhecimento e me apresentou um livro maravilhoso: “Admirável mundo novo”, do Aldous Huxley.

Quando ela me indicou essa leitura, eu, vergonhosamente, nunca nem tinha ouvido falar do livro. Pois então, eu li o que minha “aluna-professora” sugeriu e aprendi mais coisas ainda.

Ontem de noite terminei de reler (eu e duas grandes colegas vamos organizar um projeto para a escola sobre esse livro). Como sempre acontece ao reler um livro, “Admirável mundo novo” ficou mais admirável, mas menos surpreendente.

Tantas coisas tão parecidas com o nosso mundo que é quase inacreditável que foi escrito em 1932.

Em 1932, ele já preveu a nossa necessidade de mostrar tudo o que fazemos no facebook e no instagram. Como a privacidade perderia importância e como seria difícil gostar de viver sozinhos, com a gente mesmo.

Em 1932, o “mundo novo” seria todo elaborado artificialmente, incluindo as pessoas que “nasceriam” de um tubo de ensaio e não de mães. A ideia de lar não existiria mais.

Em 1932, imaginava-se que no futuro admirável cada um seria de todos e sair com a mesma pessoa por mais de três semanas iria contra as regras da sociedade. O consumo seria algo obrigatório e nada deveria ser concertado. Se não funciona, joga-se fora e compra-se outro novinho em folha.

Em 1932, pensou-se que numa sociedade perfeita, os livros e a arte apenas estragariam a felicidade e o conforto das pessoas. Aliás, quem “perde tempo” lendo um livro não consome e isso seria terrível para as engrenagens da civilização.

Correndo o risco de ser pessimista, muitos aspectos parecem com o nosso momento. Os mais leves e fáceis de serem revertidos, admito, mas mesmo assim me preocupo.

Durante a leitura me choquei de verdade com um trecho e comentei com a minha parceira de projeto. Como comentário ela me devolveu uma pergunta: “Será que nosso futuro vai ser assim?”. Eu respondi que para não ter esse questionável admirável mundo novo nós temos que, como professoras, ajudar a formas seres humanos.


E lembrando da Vitória e de outros tantos alunos maravilhosos (Rafaéis, Jessicas, Danieles, Tássias, Douglas, Cabrais, Camilas, Patricks, Ângelas, Ketlins, Laíses, Guilhermes, Geovanas, Amandas, Anas, Caróis, Brians, Natalias, Leandors, etc) tenho certeza que nosso futuro será muito diferente do livro. Confio em vocês. 

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Leituras 2015

- “A garota que você deixou para trás” (Jojo Moyes)
Um livro delicado bem romantiquinho, mas com ótimas informações sobre a Segunda Guerra Mundial e suas consequências.

- “Eu só queria ser uma mulher normal” (Débora Rubin)
Engraçado. Só serviu pra eu descobrir que talvez eu nunca seja uma mulher normal.

- “Quem é você, Alasca?” (John Green)
Muito bom!!! Até tirou meu trauma do “Teorema Katherine”.

- “O menino da mala” (Lene Kaaberbole e Agnete Friis)
Uma história que mistura de tudo um pouco. Bem instigante, daquelas que a gente quer ler mais rápido do que consegue pra saber logo o que vai acontecer.

- “Não se desespere” (Mario Sergio Cortella)
Cortella, não precisa de explicações.

- “Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo” ( Sophie Mas, Audrey Diwan, Caroline de Maigret e Anne Berest)
Sou uma parisiense da Vila Maria. Muita coisa que eu penso e que descobri que não preciso ter vergonha, porque mais mulheres pensam assim. Muito muito muito bom e divertido.

- “Diários de Adão e Eva” (Mark Twain)
Muito divertido. Uma história fácil e gostosa de ler, mas no final eu me perdi um pouco.

- “Cidades de papel” (John Green)
Manual para estragar uma história maravilhosa nas 10 últimas páginas.

- “Os cretinos não mandam flores” (La Moderna)
Quadrinhos para mulheres. Eu já conheci todos os tipos de cretinos descritos no livro. Muito engraçado porque todas nós já vivemos pelo menos metade das situações.

- “Sono” (Haruki Murakami)
O livro na verdade é sobre insônia. Uma história envolvente muito bem escrita e a edição que comprei é linda. Dá gosto de ler.

- “Um mais um” (Jojo Moyes)
Mais um livro muito bom dela. História de uma mãe guerreira que faz de tudo pelos filhos. Engraçado, interessante, com toque de romance.

- “Pequenas grandes mentiras” (Liane Moriarty)
Uma história de suspense e assassinato pintada de rosa. Pais, mães, vizinhos, fofocas e a vida com seu lado engraçado mesmo dentro de um mistério envolvendo morte.

- “Sejamos todos feministas” (Chimamanda Ngozi Adichie)
Meu primeiro passo pra saber um pouquinho mais sobre esse assunto. Adaptação de um discurso dela. Clara, direta e boa de ler.
- “1889” (Laurentino Gomes)
O último dos três livros que nos mostram como nosso país não mudou nada, nadinha, nadica.

- “O segredo do meu marido” (Liane Moriarty)
Muuuuuuuuuuuuuuuito bom. Segredos de família que envolvem a família dos outros e que envolvem a todos. Suspense leve, mistério leve, comédia leve que resultam num sucesso peso pesado.

- “O leitor do trem das 6h27” (Jean-Paul Didierlaurent)
A gente pega um livro que não parece nada e quando termina a gente sente saudade dos personagens. Baita livro com um personagem despretensioso que se torna nosso amigo.

Obs: Reli “Fahrenheit 451” ( Ray Bradbury)

Como é bom reler um livro. A gente descobre coisas que antes pareciam não estar lá. Uma história sobre uma das minhas paixões: o livro. Lendo tenho certeza do poder de mudança que eles tem.

segunda-feira, novembro 16, 2015

#somostodosapenasnósmesmos

#eunãosoumaju
 Porque eu nunca vou conseguir entender o que é receber ofensas absurdas e gratuitas por causa da cor da minha pele ou do tipo do meu cabelo. Eu nunca vou ser capaz de mensurar como deve ser difícil ultrapassar olhares e julgamentos falsamente livres de preconceito. Pra mim só existe uma raça: a humana.

#eunãosouminasgerais
Porque eu nunca perdi minha casa ou as lutas e lembranças de uma vida inteira. Não imagino como deve ser o desespero de perder pessoas amadas, coisas materiais e lembranças sentimentais em meio à lama.

#eunãosoufrança
Porque eu nunca estive no meio de um tiroteio ou de explosões de bombas, apesar da guerra civil mascarada em que vivemos no Brasil. Eu não sei o que é fazer parte de um grupo radical ou não, político ou não, religioso ou não.

#eusousóeu
Eu só consigo ser eu mesma. Posso tentar imaginar as dores e os sofrimentos que se espalham pelo mundo, mas eu sou apenas as dores que eu mesma senti. Eu não me encaixo em nenhuma # porque os tijolinhos que me construíram foram exclusivos, assim como são todos que constroem cada ser humano desse planeta. Eu não meço sofrimento, cansaço, alegria, sucesso, realização. Eu só conheço os meus e são eles que me fazem seguir a vida no meu caminho. Nesse caminho eu respeito todos que passam por mim, às vezes não controlando um ou outro julgamento, mas quando eu caio nessa armadilha, falo em voz alta uma frase que é quase meu lema: “e estamos todos certos”. Todos temos opiniões e existe espaço para todas elas. O caminho tem que ser o respeito e a empatia. O caminho é voltar para a estrada da humanidade.


#somostodossereshumanos?

quinta-feira, junho 04, 2015

Muro das Lamentações


De acordo com meu pouco conhecimento e a Wikipédia, o Muro das Lamentações fica em Israel e é um vestígio do Templo de Herodes. Nele os judeus oram e depositam seus desejos por escrito. Já vi algumas cenas na TV de pessoas orando com a testa encostada no muro, falando baixinho ou apenas mentalizando seus pedidos e agradecimentos.


Às vezes sinto falta de crer realmente em algo ou alguém. De ter um lugar para ir “desabafar” meu coração e agradecer o que tenho. Na verdade sempre agradeço pelos meus dias antes de dormir, mas não sei a quem ou a que me dirijo. Admiro essas pessoas que tem um lugar como o Muro das Lamentações para recorrer. Talvez para elas, aquilo simbolize um apoio, uma esperança, uma força para encarar os momentos difíceis da vida.

Mas (porque se não tivesse um mas o texto terminaria aqui) um grande número de pessoas encontrou um outro lugar para se lamentar e de uma maneira bem menos discreta: Facebook. As pessoas digitam com letras maiúsculas gritantes seus problemas e mazelas, depositando seus desejos e reclamações por escrito para que todos possam ler.

Talvez isso não seria um problema se não estivéssemos passando por um período gravíssimo de vitimização. As pessoas estão cada vez mais coitadas, descruzando os braços apenas para digitar publicações no Face. Tem pessoas que chegam ao extremo de acharem que o mundo inteiro está errado e só elas estão certas. Daí vão para o Facebook e preenchem linhas e linhas com frases prontas e ditados populares, dizendo como são vítimas de tudo e de todos. Não assumem suas vidas e escolhas e nem se dispõem a mudar a situação que estão, as suas atitudes nem o mundo em que vivem.

Caberia uma reflexão: talvez o primeiro passo para o fim da vitimização e para o começo de uma mudança seja tirar os dedos do teclado e os olhos do Face e colocar a "mão na massa" e os olhos na vida real. TALVEZ encostar a cabeça numa parede e falar baixinho consigo mesmo chegue mais rápido ao cérebro e à consciência.

quarta-feira, março 25, 2015

Ressuscitando o lúdico e a metáfora.



Um psicanalista, marido de uma amiga, trabalhava com usuários de drogas e, através de métodos que não sei quais foram, detectou uma tendência entre os viciados: na sua maioria, foram pouco estimulados ludicamente e tinham dificuldades de entender metáforas e ironias. Talvez esse seja um dos motivos que ajuda a explicar a minha total falta de interesse e curiosidade por essas substâncias.

Lembro várias situações em que era levada pelos meus pais a criar mundos maravilhosos. Meu pai me colocava em pé em cima dos joelhos dele e quando eu conseguia ficar equilibrada sozinha, ele dizia: "ai está a incrível equilibrista do circo maravilhoso dos Mendes. Vejam, o público aplaude em pé a grande artista Carolina". Minha mãe me apresentou muito cedo à literatura e usamos a vida inteira expressões que só nós achávamos engraçadas, pois tirávamos dos livros que liamos juntas.

Aos sete anos comecei as aulas de ballet e logo fui conquistada pela ideia de poder ser várias pessoas. Em 23 anos de ballet dancei tantas histórias que parece que vive de verdade um pouquinho de cada uma.

Na escola minha professora de português nos ensinou as figuras de linguagem. Ela disse para os meus colegas que eu era uma hipérbole e eu passei a me sentir a personificação das figuras.

Na faculdade, em teoria literária, aprendi a analisar poemas. Mais uma vez encontrei um novo mundo para visitar e também entendi os truques que os escritores usavam para conquistar meus olhos e meu coração. Aprendi que nem sempre o que está escrito significa o que está escrito e que a gostosura é descobrir o que esta escondido.

Infelizmente, hoje em dia, a metáfora foi esquecida. As pessoas leem só a superfície, perdendo tudo que esta lá no fundo do papel. Prendem-se às banalidades e radicalismos que não têm espaço na literatura pela simples falta de compreensão. Espero que nas minhas aulas eu consiga mostrar aos meus alunos que a vida é feita de coisas que não estão lá e que para percebe-las precisamos ter olhos de crianças e coração aberto para tudo.