sexta-feira, março 27, 2009

Degraus

Escolhe-se uma roupa confortável e apresentável. Não há necessidade de ficar especial, especial é o que vai fazer. Sabe-se que o dia não é adequado. Uma noite antes teve A festa e aquela não prometia muito. Chega-se cedo para garantir o lugar e puxa conversa com algumas pessoas aparentemente simpáticas e deslocadas.

O tempo passa e as pessoas vão chegando. Bebe-se mais um cerveja e a animação volta. Erra-se, a noite promete sim. Então a música, a dança, o burburinho e o vai e vem começam e começa o ritual. Não se importa se percebem, comentam ou debocham. Concentra-se tanto no desafio que nada mais importa. Por vezes quase perde certas oportunidades, mas com o treino, torna-se ágil para chegar na hora certa, colocar-se no degrau certo.

Passa-se por cada uma... Perguntam o nome, riem, apontam, sapateiam e tomam seu lugar. Dentre esses imprevistos, aflige-se apenas com o problema do lugar, mas logo se resolve. Dá-se uma empurradinha aqui, um encontrão ali e volta para o SEU lugar. O mundo em volta realmente não importa. Aquele breve instante, aquele leve cheiro e a visão, às vezes rápida de mais, do paraíso preenchem sua vida. E vai-se para casa sozinho. Sonhar que está sendo pisoteado.

quarta-feira, março 18, 2009

Teoria Literária

Na faculdade tive duas cadeiras de Teoria Literária: a primeira falava sobre poemas; a segunda, sobre romances. Preferi a primeira. Passava horas contando sílabas métricas, analisando esquemas de rimas, descobrindo as classes gramaticais mais usadas e procurando figuras de linguagem.

Apesar de gostar das hiperboles, essas não apareciam muito. Ficava enjoada com as aliterações e assonâncias, repetindo sempre alguma vogal ou consoante. Ficava sensível com as sinestesias que despertavam cada um dos meus cinco sentidos. Ficava confusa com as silepses, sem perceber a combinação de suas palavras. Ficava encantada com as personificações, descobrindo os sentimentos das coisas. Sentia-me desafiada pelas metáforas e procurava o ponto em comum das ideias.

Começo difícil. Metáforas são escritas, mas não se preocupam se alguém as entende. Elas existem por prazer, o prazer de provar uma ligação entre duas ideias jamais relacionadas. Ninguém cria uma metáfora, ela surge por geração espontânea, pela necessidade incontrolável de existir. Como quando se tem um ataque de espirro ou quando, por algum motivo misterioso, bufamos sem perceber.

Quando já me achava incapaz de desvendar as misteriosas metáforas, aprendi o que chamam de "intersecção de metáfora". Incrível! Tudo ficou claro e elas passaram a ser algo palpável, perceptível sem muito esforço. Mas dez anos depois de fazer essa cadeira na faculdade, deparei-me com uma metáfora incrível, não conseguia entende-la. Fiz o exercício da intersecção milhares de vezes, mas nenhuma das opções fez sentido. Optei por mantê-la a uma distância segura dessa minha ignorância, não queria admitir a derrota.

Quanto mais longe eu levava a minha mente, mais eu me concentrava na danada da metáfora. Até que percebi que faltava uma única coisa para ser testada no exercício de intersecção: eu mesma. Surpresa! Tudo ficou claro, incrível! E eu parei de bufar.


segunda-feira, março 09, 2009

Eclipse


"Um eclipse (do grego έκλειψη, ekleipsi, "desvanecer") é um evento celeste que mais tem atraído a curiosidade humana com respeito a mecânica celeste. Um eclipse é quando um corpo celeste se sobrepõe a outro formando um cone de sombra que no caso risca a superfície terrestre formando uma zona de ocultação. Visto da terra, existem vários tipos de eclipse e o mais comum são os lunares que podem ser parciais ou totais. O eclipse total é quando os cones de sombras da penumbra e numbra terra são projetadas no disco lunar. Quando a Lua é vista da Terra passando na frente do Sol, podem ser do tipo anular ou total". (Wikipédia)

Não importa o quão efêmero seja um eclipse, ele é mágico. Não importa quantas vezes ele se repita, ele é especial. Não importa o quão maluco seja ver o sol e a lua juntos, eles estão ali porque querem. Ficam juntos por pouco tempo, mas um não resiste ao feitiço do outro e, assim que podem, voltam a se encontrar. Ele quente, ela indecisa nas suas fases. Na maioria das vezes, ela fica lá, esperando que a sombra dele a envolva. Raríssimo é ele, poderoso, permitir que ela roube um pouco de sua luz. Por mais que tentemos, os olhos terrestres nunca enxergarão o que realmente acontece. Por mais que tentemos, nunca entenderemos como ser envolvidos por uma sombra pode ser tão prazeroso. O prazer de, simplesmente, desvanecer.