quinta-feira, dezembro 24, 2009

Aprende-se muito.


Em criança, conheci com a minha mãe. Reaprendi com o meu Cheiro. E descobri que Fernando Pessoa também entende:

"A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo".

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Cochicho




Ei, pequena! Entregue-se ao sono. Feche os olhos, criança, e durma. Não caia na minha armadilha. É engraçado como tu não resistes. Entre teus pés, tu ficas observando a minha cara e essa observação é a minha armadilha, porque ela não tem fim. Num momento, tu pensas que sou como um ciclope: um único olho enorme, logo acima de uma boquinha bem desenhada e sem nariz. Piscas, tentas dormir. Olhas pro lado e aparece aquele sorrisinho incontrolável, mas não resistes e me encaras de novo. Agora pensas que, na verdade, tenho dois olhos tão pequenos quanto negros (e perfeitamente redondos) e que é meu nariz que se destaca tanto. Minha boca continua pequena e bem desenhada, mas percebes que este ponto que se salienta poderia ser meu narigão. Eita armadilha essa, hein pequena? Tão boba e inocente que tu nem percebes que, por causa dela, esqueces as que realmente importam.

Quando ciclope vejo a ti perdida nessa brincadeira de (des)construir meu rosto. Vejo a sola dos teus pezinhos e a pontinha do teu nariz, separando teus olhos negros e luminosos. Mas vejo também dentro de ti. Sei de todas as armadilhas que tu já conheceste e cuja grande maioria conseguiu desarmar e sair com apenas alguns arranhões. Armadilhas do mundo: pessoas, fofocas, amores, confusões, tarefas, responsabilidades... Tudo aquilo que te fez um pouco menos cega em relação à vida.

Shhhhhhhh, pequena! Não me observes mais, não me escutes mais. Feche os olhos e durma. Só com a ajuda dos teus sonhos conseguirás conhecer, refletir, entender e desarmar mais armadilhas. Como todas as crianças, és teimosa e birrenta com Morpheu e continuo iluminado pelos teus olhinhos.


Quando meu nariz cresce, sinto o cheiro do teu medo e tua vergonha. Só então entendo que as armadilhas mais perigosas não estão aqui fora, estão dentro de ti e és tu que as constrói. Tu és o arquiteto, o engenheiro e o construtor, então por que ter medo delas?Use tua esperteza, teu sorriso e teu sarcasmo e vença-as. Por que a vergonha? Não é vergonha nenhuma cair duas vezes na mesma armadilha. Orgulhe-se porque também sinto cheiro de percepção. Tu sabes que estás indo em direção a ela e que o primeiro pezinho já está lá dentro. Sabendo disso, volte. Não é vergonha voltar. Retorne ao caminho e pare com esse auto-boicote.

Ei, pequena? Tu já te destes conta desse teu “talento”para se labirintar. Não te percas mais em pensamento como esse que te levam a mim. Já ouvistes que o pior inimigo é aquele que temos dentro de nós. Faça as pazes contigo mesma. Olhe para o lado, deixe aparecer aquele sorrisinho incontrolável, feche os olhos e durma. Durma, sonhe e decifra as armadilhas do mundo. Elas já são suficientes para a pontinha do teu nariz
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