quarta-feira, maio 27, 2009

Quando nasce uma bailarina?


Eu consigo me lembrar da primeira coreografia que eu apresentei no ballet. Eu era "o povo da terra dos comilões" do "O Mágico de Oz" a vinte anos atrás. Mas o que eu acho estranho é que eu não consigo lembrar se fiquei nervosa ou não.

Semana passada tivemos o espetáculo do ballet, reapresentamos as montagens dos musicais "Grease", "Cabaret" e "O Mágico de Oz". No ensaio geral das crianças fiquei o tempo todo na cochia, ajudando nas trocas de roupas e esperando minha entrada (uma das últimas músicas).

No meio disso tudo, conheci a Antônia. Uma menininha linda de seis anos que estava estreiando. Entrou no ballet em março desse ano e estava pisando pela primeira vez no palco. Acredito que a coreografia da Antônia não fechava nem um minuto, mas quando ela voltou pra cochia os olhinhos estavam arregalados, a carinha super séria e o coração disparado de um jeito que eu nunca vi.

Vendo uma possível cena de choro se aproximando, perguntei se ela tinha ficado nervosa e a carinha séria só conseguiu balançar pra cima e pra baixo pra dizer que sim. Estando os olhinhos arregalados ainda, perguntei se ela gostou de dançar no palco. Daí toda a tensão foi embora e um sorrisão se abriu e ela disse "Sim!" num gritinho.

Pensei: essa não para mais de dançar.

terça-feira, maio 19, 2009

Aromas


Faz um bom tempo que eu penso em escrever sobre uma das coisas que mais me chamam a atenção: cheiros. Tanto bons como ruins, os cheiros entram no meu cérebro e lá fazem uma gavetinha. Cada vez que sinto um cheiro, uma gavetinha se abre e dela sai uma lembrança, uma sensação.

Abrir um pote de gel de cabelo lembra apresentação do ballet e a sensação do nervosismo sai do pote e vai direto pra boca do meu estômago. Outro pote também me traz lembranças, o de nutella. Lembro da minha viagem pra Alemanha e como a sensação de fome nunca me abandonou no um mês que fiquei por lá. Ainda falando de viagens, canela lembra EUA. Me enjoa até a alma. Noite tem cheiro de cigarro e Halls e toda tarde de chuva tem cheiro de bolinho frito.

Algumas pessoas tem cheiro de Boticário: Ops, Florata in Blue e Dimitri. Outras tem cheiro de coisas: maquiagem, cachorro, giz, cigarro ou gasolina. E um terceiro grupo, mais raro, tem o cheiro delas mesmas, como se os cheiros exteriores não chegassem nelas.

Esses cheiros são difíceis de explicar, porque não são cheiros de coisas, mas sim de sensações. Fecho os olhos e, de repente, estou num lugar desconhecido, lotado de gente que eu nunca vi na vida. Me sinto perdida, angustiada e quase triste. Então, respiro fundo e sinto aquele cheiro bom e ele se torna uma presença que me traz aconchego e paz. Uma sensação gostosa e quente.

Tudo tem cheiro. Até a terra tem cheiro! Sempre conseguimos percebe-lo no começo de uma chuvinha gostosa de verão. Sou um radar de cheiros e é através deles que vou montando meu quadro de lembranças, minhas histórias de vida.

terça-feira, maio 05, 2009

Obrigada

Ando pensando ultimamente se uso adequadamente essa palavra. Sei que uso muito quando, por exemplo, meus alunos fazem prova e a entregam pra mim, eu sempre agradeço. Repito vezes incontáveis: "brigada", "obrigada". Mas acho que uso mais quando é uma convenção do que quando as pessoas realmente merecem ouvir.

Nunca agradeço quando recebo um elogio. Fico vermelha, morro de vergonha, nego ou, simplesmente, me calo. Por mais estranho que pareça, acho constrangedor receber um elogio, porque não sei como reagir. Prefiro desmentir a pessoa a agradecer. Por tanto, àquelas pessoas que reconhecem minhas qualidades com mais facilidade do que eu, muito obrigada, de coração.

Tenho a incrível sorte de ter muitos ouvidos e olhos a disposição para me escutar ou me ler nos momentos que mais preciso. Às vezes, a minha necessidade é só ficar repetindo a mesma história várias vezes pra ver se entendo. Às vezes, pergunto enlouquecidamente coisas que ninguém sabe responder e, mesmo assim, eles tentam pra me confortar. A vocês, meus conselheiros de plantão e terapeutas gratuitos, muito obrigada.

Convivo com os tipos mais diferentes: professores; publicitários; artistas; gays; burocratas; filósofos; loucos; pré-, pós- e adolescentes; falsos moralistas e pseudomoderninhos. Algumas vezes me indigno com eles, outras aprendo que estou errada e tento mudar. Mas o mais legal é que convivemos muito bem nas nossas diferenças, nos entendemos, nos respeitamos e nos compreendemos. Àquelas pessoas que, mesmo tão diferentes de mim, tentam me compreender, muito obrigada.

Acho que temos que agradecer mais a atenção que nos é dada. Agradecendo aos outros reconhecemos a importância que eles tem em nossa vida e também a contribuição deles pra formação de quem somos. Não é por nada que no final de cada espetáculo, bailarinos e atores sempre agradecem.