terça-feira, fevereiro 24, 2009

Não sei muito bem


Não sei muito bem sobre o que escrever. Tenho muitas ideias, mas parece que nenhuma quer sair da cabeça e se transformar num texto. As que têm essa vontade não podem, nem querem, ser lidas por muita gente.
Talvez seja o final das minhas férias. Minhas enormes férias estão, finalmente, acabando. Ai! Mas eu não sei muito bem se eu quero que acabem. As melhores férias depois da África, com toda certeza. Eu tinha a esperança de ganhar na mega sena antes do fim das férias e poder viver pra sempre na "vagabundagem malemolente" (como já diria JB) que se resumiu meus meses de janeiro e fevereiro.
Por outro lado, não sei muito bem se o que está me faltando não é o meu trabalho e coisas realmente importantes pra pensar. Sinto falta de alguns colegas e dos meus alunos. Mas por que comigo é 8 ou 80? Passo dois meses na inércia completa e quanto retomo minhas atividades, elas voltam todas ao mesmo tempo, sem me deixar tempo pra respirar.
Nessas férias eu aprendi um monte de coisas sobre mim e vou fazer força pra mudar as que eu não gostei. Não sei muito bem como fazer, mas acho que vou conseguir descobrir. Mas tenho a impressão de que não vou mais caber em mim. A cobra aqui tá trocando de pele e tá precisando de uma muito maior.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Poesia Desdobrável



Pri, Ângela e eu estávamos passando as últimas horas do dia no Pastel. No tempo que ficamos lá jogando conversa fora um mendigo pediu cigarro, um menino ofereceu bala de goma, uma moça ofereceu CD e DVD piratas e um senhor pediu ajuda através de um panfleto pois se dizia surdo-mudo. E quando parecia não existir mais nenhum tipo de pedinte ou de vendedor, apareceu um senhor vendendo poesias.

Eu já o conhecia, já havia comprado uma poesia dele a um tempo atrás. Falei isso pra ele e disse também que o único dinheiro que eu tinha era uma nota de R$2,00 (verdade pura, Ângela que pagou meu lanche). Agradeci e me desculpei e o amigo retribuiu com um sorriso, contando orgulhoso que seu livro está pra ser lançado em breve.

Calmamente, ele atravessou a rua e ofereceu suas poesias para quem estava sentado nas mesas da panqueca. Ninguém comprou. Eu não suportei! Não poderia negar uma poesia e dormir bem de noite. Não devemos virar as costas para a poesia quando ela se oferece pra gente. Peguei meus dois pila, gritei "espera amigooooo!" e atravessei a rua correndo.

Carol - Eu só tenho R$2,00, tu me vende uma por R$2,00? Sou prof de literatura, não posso negar uma poesia.

Poeta - Tu é prof de literatura? Que legal! Hoje fui buscar na gráfica um exemplar do meu livro. Pena que não está comigo pra eu te mostrar. Falo sobre pergaminhos, papiros e mulheres.

Pedi o envelope que tinha uma borboleta com o fundo azul. Ele disse que aquele envelope tinha uma poesia muito triste, que tinha um com o fundo azul com uma poesia melhor pra uma prof de literatura. Como dá pra ver lá em cima, a poesia era um cisne, com uma pena azul impressa nas costas do poema. Na frente, uma janela aberta e o seguinte texto:

"e quando cruzas
as portas de meu dia
fico aflita
quase desfaleço
e como ave retornando ao ninho
me intimido
voo raso
rumo incerto
fecho as portas
te guardo
anoiteço".
Escutem o que eu digo, se a poesia se oferecer pra vocês, não deixem ela passar. Ela nos escolhe.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009


Como criança diante de uma fogueira. O fogo é lindo e nem pisca ao olhar pra ele, a mão paira no ar louca pra encostar naquela magia vermelha, mas pelo calor que sente de longe sabe que o melhor é ficar afastada.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Calor, agitação, felicidade.
Cada músculo ligado em 220.
Parece que nada será capaz de me parar:
Nem sono, nem preguiça, nem aconchego.
Então, a lua aparece e, quando sua luz
Se torna a única claridade, sinto-me hipnotizada.

Meus olhos viajam até ela e, paradoxalmente,
Eles entram cada vez mais para dentro de mim.
Perdida entre a lua e meu íntimo, quase enlouqueço,
Feito Ismália, até encontrar um rumo.
A partir dele, percebo o que está a minha volta
E como, sob aquele luar azulado, tudo ganha uma áurea mágica.

A lua lá em cima também observa.
Talvez ela também esteja surpresa com a beleza do que vê.
Talvez ela também esteja suspirando e tentando entender sua própria luz.
Talvez ela também esteja desejando que a noite não acabe.
Eu desejo, mas não é forte o suficiente para parar o tempo,
Só para atrasa-lo. Nesse atraso, a lua pára e ilumina o que, finalmente, me faz sossegar.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Amor de pai

Foto velha e horrorosa, julho de 2008

Conversa entre meu pai e eu, quando nos preparávamos para ir ao banco hoje de tarde:

Carol - Pai, tô gata, hein? Gata e magra.
Pai - É, magra tu tá mesmo.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Surrealismo da meia noite


Estou eu no meu quarto, o único cômodo da casa onde tem alguém acordado. Por algum milagre, minha mãe tão noturna quanto eu resolveu dormir cedo hoje e eu era, então, o único ser humano desperto da casa. Recebi uma mensagem. Ouvi um bichinho fazendo barulhos que me assustaram e decidi não sair do meu quarto. O bichinho fica lá na sala e eu aqui no meu quarto. Não nos vemos e ficamos felizes assim. Mas o telefone de casa toca e sou obrigada a sair. Meu pai atende lá no quarto dele. Outro milagre, meu pai acordado?! Depois de um tempinho, passam pela minha porta de vidro meu pai e minha mãe. Acendem as luzes, meu pai liga a TV, minha mãe ataca a geladeira e procura algo pra ler. Perdeu o sono com o telefonema do nosso primo dos EUA. O que ele queria? Saber quantos porcento de juros ele ganha na poupança dele, qual o saldo da conta corrente dele, se a mulher dele é dependente no imposto de renda, se ela tem um CPF... Enfim, coisas que todo mundo liga a meia noite pra perguntar pros outros. Agora estamos todos acordados (com excessão da minha vó) e com fome. Tô tentando convencer meus pais de irmos no Mc Donalds, mas minha mãe disse que isso é coisa de gorda. Que temos que dormir, porque é o que mulheres elegantes e magras fazem: dormem com fome.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Espelhos



Uns anos atrás pedi para uma turma de alunos ler o conto "O Espelho" do Machado de Assis. A ordem era: leiam o conto e entreguem o trabalho mais criativo possível. Um grupo absorveu e concretizou o conto de uma maneira incrível: entregaram uma lata, cujo rótulo era a teoria defendida no conto, e quando se abria a lata dávamos de cara com nosso próprio rosto.
No fundo da lata tinha um espelho e a reação de todo mundo que a abriu foi, assim que se via, desviava a lata o mais rápido possível. Então fiquei pensando o porquê dessa reação, o porquê do medo de se olhar e acho que é a consequência do nosso tempo. Olhamos para tudo e para todos, mas nunca olhamos para nós mesmos.
Quantos álbuns do ORKUT vocês visitam por dia? Quantos blogs vocês leem na internet? Quem não perde o BBB? Quantas fofocas vocês fazem por dia? Voyerismo é a palavra de ordem da nossa sociedade. Não só a tecnologia contribui para esse afastamento de nós mesmos, mas as próprias relações que construímos com os outros. Quantas vezes deixamos de olhar para as nossas vidas e nos preocupamos com a vida dos outros? Tão fácil apontar os defeitos, perceber as qualidades, resolver os problemas, aconselhar os outros. E na nossa própria vida? Por que preferimos nos cegar do que reconhecer nossas fraquezas ou acreditar no nosso potencial?
Assim seguimos a vida, olhando cada vez mais para fora e esquecendo do que existe dentro de nós. Preenchemos nossa curiosidade com BBB, MSN, ORKUT, blogs, chats, tudo para ver os outros. Não faz muito tempo me dei conta de uma coisa. Ao ligar meu note para ler os 12 blogs que acompanho diariamente, dei de cara comigo mesma. Na tela escura do computador surgiu meu rosto e, então, percebi que não importa o quanto tentamos fugir, uma hora ou outra daremos de cara com nosso próprio rosto e teremos que nos enfrentar.

O MORCEGO
(Augusto dos Anjos)

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!