Inacreditável Secretaria de Educação

O Governo Estadual elaborou um projeto que ficou conhecido como o "Novo Ensino Médio". Para começo de conversa, o estado solicitou que todas as escolas fizessem uma reunião para divulgar o projeto para os professores. Os professores, por sua vez, deveriam ler e discutir o projeto, escrevendo um documento colocando críticas, sugestões, etc.

Hoje aconteceu a reunião na minha escola. A apresentação já nos deixou com uma pulga atrás da orelha: "A proposta de reestruturação do Ensino Médio foi construída levando-se em consideração o Plano de Governo para o RS no período de 2011 - 2014". Ok, um projeto com data marcada para acabar. Como uma experiência em um laboratório, com ratinhos em rodinhas e tal. Logo após, passamos para uma explicação linda com termos bem elaborados sobre pedagogia, didática e interdisciplinariedade, tudo baseado em alguns itens da LDB. O "Novo Ensino Médio" será dividido em três tipos: o normal (conhecido hoje como magistério), o técnico (como nas escolas técnicas, mas só com a parte profissional, sem aulas "de colégio") e o politécnico (que é o que nos interessa nesse texto).

O ensino politécnico visa a necessidade do mercado de trabalho, mas apenas os cargos da base desse mercado. Sem querer ofender nenhuma profissão honesta, resumindo em palavras chulas, o ensino politécnico formará arigós, peões ótimos na arte de trabalhar, obedecer e ponto. O curriculo do ensino politécnico dividi-se da seguinte maneira:

1° ano: áreas de conhecimento - 24h
parte diversificada - 6h
2° ano: áreas de conhecimento - 18h
parte diversificada - 12h
3° ano: áreas de conhecimento - 13h
parte diversificada - 17 h

Áreas diversificadas são as matérias que temos hoje em dia (matemática, português, física...), a parte diversificada engloba a língua estrangeira (OU inglês OU espanhol), ensino religioso (absurdamente ainda obrigatório) e projetos que serão desenvolvidos pela escola.

Perceberam o número de horas relacionadas às áreas de conhecimento no 3° ano? Pois é, está previsto a seguinte grade disciplinar para o 3° ano: 5h para português, literatura, artes e educação física; 1h para matemática; 3h para física, química e biologia; e o restante, infelizmente, eu não consegui anotar nem decorar. Entenderam bem? Os alunos de terceiro ano que deveriam estar se preparando para ENEM, vestibular, concursos públicos, etc, terão UM PERÍODO DE MATEMÁTICA POR SEMANA.

Nossos alunos sairão do ensino médio com o mínimo de conhecimento. Engessados dentro de um sistema de ensino que não permite crescimento intelectual. Para quem leu "Admirável Mundo Novo" isso soa assustadoramente familiar. Para os alunos formados no ensino politécnico o caixa do supermercado é o limite. Repito que não estou querendo desmerecer as profissões honestas, mas decidi ser professora para mostrar pros meus alunos que nossa mente não tem limite. Que o futuro deles não está pré-determinado pelo meio social, que eles podem alcançar tudo aquilo que eles lutarem para ter.

Daí o governo do estado apresenta esse projeto contradizendo essa minha "filosofia" e contrariando todo o desenolvimento mundial. Enquanto todos investem em uma segunda língua para qualificar qualquer trabalhador, para o governo estadual ela é jogada para a "parte diversificada" com UM PERÍODO. Enquanto o governo federal estimula o ENEM e bolsas para maior acesso ao ensino superior, o governo do estado limita quem se forma no "Novo ensino médio".

Agora pergunto: algum dos interessados teve a oportunidade de votar para aprovar ou não esse projeto? NÃO! Ele será colocado em prática já no ano letivo de 2012 e, como diz a apresentação do projeto, acabará em 2014. Será isso? Servirá pra que? As dúvidas que todos os professores tem são inúmeras, mas muitas delas a CRE não sabe responder. As revoltas dos professores contra esse abuso governista e essa imposição de "fábrica de mão-de-obra barata" são infinitas, mas sabem qual é a orientação do governo sobre o que fazer com nossas revoltas e críticas?

"As contribuições e aprofundamentos oriundos dos participantes, em cada etapa, não poderão ser contraditórias ao 'Documento Base' da SEDUC nem ferir a nova legislação do Ensino Médio, já que a Conferência em suas diferentes etapas não tem caráter deliberativo e sim indicativo e propositivo".

Para usar as últimas palavras chulas desse texto resumiria isso como "Governo ditatorial que impõe censura àqueles que se opõem".

Desejo que os alunos do futuro, que queiram prestar vestibulares, concursos públicos e ter bons resultados no ENEM, tenham dinheiro para pagar uma escola particular.

Comentários