quarta-feira, março 25, 2015

Ressuscitando o lúdico e a metáfora.



Um psicanalista, marido de uma amiga, trabalhava com usuários de drogas e, através de métodos que não sei quais foram, detectou uma tendência entre os viciados: na sua maioria, foram pouco estimulados ludicamente e tinham dificuldades de entender metáforas e ironias. Talvez esse seja um dos motivos que ajuda a explicar a minha total falta de interesse e curiosidade por essas substâncias.

Lembro várias situações em que era levada pelos meus pais a criar mundos maravilhosos. Meu pai me colocava em pé em cima dos joelhos dele e quando eu conseguia ficar equilibrada sozinha, ele dizia: "ai está a incrível equilibrista do circo maravilhoso dos Mendes. Vejam, o público aplaude em pé a grande artista Carolina". Minha mãe me apresentou muito cedo à literatura e usamos a vida inteira expressões que só nós achávamos engraçadas, pois tirávamos dos livros que liamos juntas.

Aos sete anos comecei as aulas de ballet e logo fui conquistada pela ideia de poder ser várias pessoas. Em 23 anos de ballet dancei tantas histórias que parece que vive de verdade um pouquinho de cada uma.

Na escola minha professora de português nos ensinou as figuras de linguagem. Ela disse para os meus colegas que eu era uma hipérbole e eu passei a me sentir a personificação das figuras.

Na faculdade, em teoria literária, aprendi a analisar poemas. Mais uma vez encontrei um novo mundo para visitar e também entendi os truques que os escritores usavam para conquistar meus olhos e meu coração. Aprendi que nem sempre o que está escrito significa o que está escrito e que a gostosura é descobrir o que esta escondido.

Infelizmente, hoje em dia, a metáfora foi esquecida. As pessoas leem só a superfície, perdendo tudo que esta lá no fundo do papel. Prendem-se às banalidades e radicalismos que não têm espaço na literatura pela simples falta de compreensão. Espero que nas minhas aulas eu consiga mostrar aos meus alunos que a vida é feita de coisas que não estão lá e que para percebe-las precisamos ter olhos de crianças e coração aberto para tudo.