sábado, dezembro 30, 2006

Poesia


Uma colega contou que, quando adolescente, era amiga de duas irmãs que tinham uma babá. Aquele tipo de babá que cuida da mãe, dos filhos, dos netos e ficam fazendo parte da família.
Contando pra essa minha colega um pouco de sua vida, a tal babá contou a seguinte história:

"Nós éramos oito. Fomos morrendo, fomos morrendo e agora somos só eu".

Em um primeiro momento, se a gente lê sem prestar atenção, essa frase é só uma união de vários problemas de concordância verbal. Mas é só porque eu disse que foi uma babá que escreveu. Se abaixo dessa frase estivesse entre parênteses o nome de algum autor famoso, daríamos várias interpretações.

Os modernistas (como Mario de Andrade que nos dá o prazer de sua presença ai em cima), estudaram, discutiram, debateram durante anos e anos como fazer poesia contrariando todas as regras e estruturas rígidas de nossa língua. Essa senhora fez isso sem, talvez, nem nunca ter lido algum modernista.

A interpretação que dou é que a poesia vem do coração menos treinado e estudado e do mais cheio de sentimentos. Cada irmão que morreu levou um pouco dela e ela é a soma de um pouquinho de cada irmão.

Talvez não faça sentido eu voltar quase um ano depois e escrever isso, mas é uma frase maravilhosa, não?

2 coisas de vocês:

Mônica disse...

Engraçado, não prestei atenção quando tu disse q a frase tinha sido escrita pela babá. E logo quando li achei poética. E verdadeira, porque acho que sou assim também. Sou a soma de tudo e de todos que passam por mim e sempre acreditei que o todo é maior que a soma das partes.

Ju disse...

Muito boa a frase!